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  • Foto do escritorMarcio Weber

Festival do Rio 2023 | Dia 4


festival do rio 2023

Posto Avançado


Dirigido por Edoardo Morabito, a obra documental teve sua estreia no prestigiado festival de Veneza, dentro da mostra independente, Giornate Degli Autore. Abordando o trabalho de um escocês, Christopher Clark, que há mais de 30 anos atua na reserva do rio Xixuaú, uma área de 2,2 milhões de hectares protegidos e diversos projetos são engendrados para o estímulo da preservação da fauna e flora.


POSTO AVANÇADO EDOARDO MORABITO

Aqui existe o interesse de sedimentar para o espectador o perfil de um ativista engajado, ativo e complexo e criar pequenas anedotas e curiosidades para estimular o interesse do ator social do filme e contrastar com as crescentes ameaças ambientais na Amazônia, com uma atitude inusitada, promover um show do Pink Floyd no meio da mata.


Se a premissa parece difusa, você não está enganado, existe uma dificuldade da documentação em estabelecer momentos e complexidades do retratado, que apenas parecem enfatizar ações e atitudes, mas que não ajudam a compreender quem de fato é Christopher Clark, suas intenções, motivações, o motivo de atuar na Amazônia e esse distanciamento atrelado a questão social que parece mais expositiva e espiritual do que propriamente discutida e debatida a fundo pelos recursos fílmicos do documentário.


A participação de David Gilmour e da banda britânica, não fica exatamente clara para além de uma sensação de devaneio e parece muito mal resolvida e usada mais como uma ferramenta de curiosidade sociológica ao ser confrontada com os habitantes locais do que ser de fato debatida.


A falta de apuro técnico entre a captação de imagens que contrastam muito de qualidade e não há um equilíbrio da montagem que ora mostra passagens longas demais, não dimensionam a balança entre a narração em off e os acontecimentos factuais.


No final das contas, a sinopse parece dizer tanto quanto ter assistido à obra de Morabito.

 

A Suprema


Recém exibido no prestigioso Festival de Toronto de 2023, "A Suprema" é o longa de estreia de Felipe Holguín. Explorando questões sensíveis e socioeconômicas de um país de contradições e abismos sociais como a Colômbia, a falta de distribuição de energia elétrica, a concentração de renda, a falta de segurança social e a ausência de uma integração territorial igualitária e o esporte como signo social, são um dos muitos temas tocados por esta obra colombiana.


A SUPREMA FELIPE HOLGUIN

Apesar de concentrar a história com enfoque nas experiências em dois personagens centrais, que refletem muito das questões perpassadas, o filme reflete muito mais uma questão coletiva e social em torno de um agrupamento que sofre na pele um isolamento social e econômico dos grandes centros urbanos das cidades. O roteiro de Holguín enfatiza esses contrastes e mostra uma certa convulsão social e se debruça em perspectivas culturais.


Estas são muito incorporadas pelo naturalismo e uma estetização regional que busca mostrar aspectos regionais, gestos e localidades que remetem a vilarejo onde se passa a história e ressaltar um pertencimento e uma inclinação identitária pela estética. Existem planos esteticamente bonitos visualmente e ricos em termos descritivos.


A narrativa às vezes na falta de foco em trazer estes anseios e questionamentos, as vontades, desejos e tocar nestes tópicos para além de um discurso afirmativo, às vezes parece um instrumento vocal que não corresponde tanto às emoções e individualidades dessas pessoas. Por mais que as críticas e o relevo social atingido estejam lá. O filme então acaba gerando um sentimento misto, apesar de amplamente afirmativo.

 

O Auge do Humano 3


Apesar do que o título possa sugerir, não se trata de uma sequência ipsis litteris, não há um segundo filme e tampouco, este filme é uma sequência direta ao "O Auge do Humano", mas sim uma ampliação estética e outros olhares, que conversam, ou não, com o filme de 2016, também de Eduardo “Teddy” Williams. Uma produção internacional, com vínculo direto com 8 países diferentes (!!!!) e é falado em pelo menos seis idiomas diferentes. É um filme literalmente sem fronteiras.


O AUGE DO HUMANO 3

A ausência de fronteiras não está apenas na ficha técnica e nos idiomas falados, existe uma deambulação da forma e das estruturas fílmicas, afinal, a produção é composta por andanças, comunicações soltas, entre idiomas, pessoas, localidades que vem e vão em um fluxo intermitente e muito particular em que a estrutura rítmica se alterna, portanto, é uma obra que debruça mais pelo sensorial, por um diálogo espiritual e que faz da difusão e onirismo um dos seus principais trunfos, inseridos em um contexto exploratório, hostil em que a natureza não poupa o homem de suas catástrofes e intempestividades.


O esgarçamento e o deslocamento perceptivo toma conta deste filme, que adota câmera 360 e gira em espirais, adota a imagem ao espectador como um recurso típico do streetview, evidencia glitchs, isto é, ruídos, deformações e manipulações da imagem, brinca com a diegese e metalinguagem dentro destes discursos. A realidade vira sonho, vira pesadelo, vira um limbo, vira uma fantasia esperançosa, ou só mesmo uma fantasia.


A realidade é uma ficção, e a ficção é uma realidade. Uma experiência que te alucina, mas que de alguma forma traz algum tipo de virtude e num oceano de incompreensões, dúvidas, sensações de incompletude. O desconhecido é tal qual um raio, aquilo que assusta, mas fascina de alguma forma, pode te ferir e ser uma experiência terrível ou manter uma chama viva para o que pode vir a ser um tipo de vida vivida.

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