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  • Foto do escritorMarcio Weber

Festival do Rio 2023 | Dia 3


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Hit Man


Richard Linklater é um cineasta humanista que já explorou vários meios diferentes de recursos, estilos, técnicas e as vicissitudes da natureza do comportamento humano, que vão desde um filme gravado no intervalo de 12 anos como uma crônica do amadurecimento de um menino para se tornar um homem ("Boyhood: Da Infância à Juventude"), o inusitado e profundo encontro romântico entre dois jovens adultos que se encontram em um trem na Europa e como esse relacionamento evolui ao longo dos anos por meio desta trilogia (Antes do Amanhecer, Antes do Pôr do Sol, Antes da Meia-Noite) ou até uma radicalização destes estilos em uma abordagem radical, em termos de estrutura, em uma animação de rotoscopia que não economiza na filosofia e na metalinguagem ("Waking Life").


Em seu mais novo filme, "Hit Man", escrito em parceria com o protagonista e colaborador regular do cineasta, Glen Powell ("Top Gun: Maverick"), ecos do cinema do cineasta ficam explícitos logo de cara, os discursos filosóficos, o tom geracional, a aura musical simpática que imprime leva para a condução do filme e a utilização da narração, bem presente na produção anterior do cineasta, o ótimo "Apollo 10 e Meio: Aventura na Era Espacial".


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Não senti, todavia, um gosto de déjà vu, pelo contrário, mesmo que o filme converse estilística e tematicamente com muitas outras obras do diretor, existem predicados distintivos e a autoconsciência e o equilíbrio narrativo de ao mesmo tempo, não se levar a sério e se pautar por uma história absurda (um professor universitário que atua para o F.B.I. e subitamente começa a trabalhar como um matador de aluguel infiltrado).


Porém, em "Hit Man" a autoconsciência e o domínio das convenções cômicas (é um filme que se satiriza e trabalha noções do ridículo em seus personagens, mas de maneira orgânica, condensada e equilibrada) consegue pavimentar surpresas e intrigas que resultam em comentários profundos sobre a nossa natureza comportamental e emocional.


"Hit Man", portanto, é um filme formalmente leve e prazeroso, que domina a comédia de erros tão instrumentalizada por cineastas como Joel e Ethan Coen, para as próprias obsessões de um cinema, que para mim, credibiliza Linklater como um dos cineastas mais interessantes a filmar na contemporaneidade.


 

O Dia Que Te Conheci


Recentemente, Kleber Mendonça Filho, em seu último trabalho no cinema disse que “as ficções são os melhores documentários". Concorde-se ou não com essa afirmação podemos fazer paralelos e diálogos sobre um tipo de cinema particular e de abordagens e tendências características de uma identidade local colocada descritivamente em uma cartografia geográfica e que não economiza no afeto, entretanto este vem despido de qualquer hipérbole e vem impactando muitas pessoas no Brasil, mas também internacionalmente.


A produtora mineira, Filmes de Plástico, que alcançou no ano passado uma indicação oficial ao país com o grande sucesso de "Marte Um", agora tem um novo filme, de um nome importantíssimo da produtora, André Novais Oliveira, diretor de "Temporada", "Ela Volta Na Quinta", e os belos curtas, "Fantasmas", "Pouco Mais de Um Mês" e "Quintal".


Neste novo projeto de ficção, a afirmação de Kleber se depara com um olhar bem próximo de um cotidiano, em retratos de: Betim, Belo Horizonte, do Sudeste e de ser brasileiro de uma forma geral. Apesar de trazer nas imagens, nas interações, nas músicas diegéticas as referências artísticas, preferências e tendências comportamentais (não são poucas as referências de música brasileira, sobretudo de nomes do rap nacional, como Matuê, BK ou até mesmo ter FBC no elenco), é um filme que se faz universal justamente por um dos fatores centrais do que distinguem os seres humanos.


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Isto é, a junção entre a comunicação verbal e física, o discernimento de perceber e conseguir transmitir sensações, sensibilidades dos momentos e experiências que passamos, algo que o cinema de André Novais Oliveira evoca de maneira insigne. A interpretação de acontecimentos tão rotineiros na vida de alguém num contexto brasileiro, como perder o horário, tomar remédios que afetam seu sono, sofrer e ficar angustiado com um ônibus que para no meio do caminho.


Mas o maior diferencial é posicionar esses acontecimentos com uma subjetividade, uma veia afetiva e generosa, que não condena, muito menos aponta os erros e incoerências dos seus personagens, mas permite um fluxo das imprevisibilidades, dos quiproquós, dos pequenos acontecimentos, dos lugares que marcam uma vida, dia após dia.


O recorte da narrativa é bem certeiro neste ponto, uma vez que acompanhamos um dia na vida de um Zeca (Renato Novais, ótimo no papel), um bibliotecário escolar de Betim, que ilustra muito bem alguém resignado pela vida social bagunçada, a exigência de ter que se deslocar para longe, ter que se deparar com as não equidades sociais do seu trabalho, e neste meio tempo, em algo que seria um momento desastroso e negativo, ele finalmente conhece Luisa (Grace Passô), uma virtual estranha, ou a chamada conhecida de trabalho.


E é essa troca de olhares, intimidades e descobertas, entre a comunicação constante e fixa, a falta de assunto, o desconforto que vai transformando vários aspectos da cidade e da região como um grande cartão postal, entre todos seus desígnios, trânsito de carros, bares, manifestações culturais.


É um trabalho íntimo, que dá muita margem para a discussão atual engendrada por Kleber Mendonça Filho e reverberada nas abordagens do cineasta mineiro.

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