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  • Foto do escritorMarcio Weber

Festival do Rio 2023 | Dia 2


festival do rio 2023

Céu de Plástico


Céu de Plástico” é o longa de estreia da dupla de diretores húngaros, Tibor Bánóczi e Sarolta Szabó, e tem tido uma carreira próspera em festivais de cinema, sendo selecionado para o Annecy na França, maior festival de cinema dedicado especificamente a projetos de animação e festivais importantes como a mostra Encontros no Festival de Berlim. Ao assistir ao filme não fica difícil entender o porquê do holofote dado ao filme, afinal, a abordagem distintiva e a urgência temática que centraliza o discurso em prol da sustentabilidade e, portanto atento a grandes pautas da humanidade hoje.


CEU DE PLASTICO FESTIVAL DO RIO

Bánóczi e Szabó colocam a história no ano de 2123 e para além de situar a trama em um contexto futuro, existe uma premissa distópica a qual consiste na dúvida da existência e prolongamento dos humanos, para que os indivíduos possam viver em comunidade é necessário que os indivíduos abdiquem da própria vida e se tornem progressivamente árvores, entretanto quando uma dessas pessoas decide acelerar este processo, o marido decide tentar mudar o rumo desta trajetória.


O eixo central do filme é a tentativa de fugir do inevitável, de não se resignar e provocar uma mensagem de reflexão e consternação, mas ao mesmo povoar um discurso contrário à resignação e aceitação da história como ela está se desenhando e maior porta-voz é de fato ao amor e os sentimentos de Stefan e todos os riscos e situações desfavoráveis incumbidas a ele.


Outro fator digno de nota, é a concepção visual do planeta terra e a integridade dele, a distinção imagética por meio do hibridismo das técnicas de animação, reforçam a ideia de trafegar pela devastação, escassez e catástrofe universal, que não distante do imaginário retratado por obras futuristas e distópicas que abordam contextos semelhantes, mas é a partir da rotoscopia e modelagens tridimensionais de superfícies duras que criam texturas e formas próximas à realidade trazem uma natureza particular e única para uma concepção visual que vai além da danação e ruínas onde a humanidade chegou.


CEU DE PLASTICO FESTIVAL DO RIO

Apesar de premissas e construções potentes do ponto de vista conceitual e formal, existe no filme alguma dificuldade de costurar um ritmo coeso, ora apressa a história em exposições e diálogos morosos e redundantes e algumas vezes confusos, o romance e a carga poética e contemplativa do filme parecem deslocados muitas vezes, entretanto o apelo visual e a força da mensagem podem impactar muitos espectadores.


 

Blackbird, Blackbird, Blackberry


A diretora georgiana Elene Naveriani pôde ter um de seus filmes acessados por brasileiros durante um determinado período ao ter "Wet Sand" (2021) no catálogo da MUBI até este ano. Sua nova produção, “Blackbird, Blackbird, Blackberry” chega aos festivais de cinema, e confirma a tradição do país de emplacar obras cinematográficas no mercado de festivais mundo afora.


Blackbird Blackbird Blackberry FESTIVAL DO RIO

Uma das maiores distinções de um festival de cinema é instigar e dar espaço para produções de cinematografias com menor espaço, um holofote de exibição sem precedentes, a sessão lotada de uma história que gravita na intimidade e dos desdobramentos, afirmações, experiências e sensações de uma mulher de 48 anos, fora de qualquer padrão pré-determinado pela sociedade.


A solidão convicta de Etero (Eka Chavleivshki, presente também no filme de 2021), representa uma mulher que está mais próxima de ser quinquagenária do que nunca, reflete uma resignação ante o conservadorismo inerente de um povoado do interior da Geórgia, país que fica na interseção entre Europa e Ásia. O marasmo da região e as repetições excessivas ganham uma textura diferente, quando ela se depara com uma situação de quase morte que modifica paradigmas e reflexões que vão de encontro à Murman (Temiko Chichinadze), o homem da mesma faixa que é um distribuidor de mercadorias casado, o desejo entre ambos transforma a vida dos dois por completo.


As descobertas e observações de mundo guiam um personagem que está sempre em busca de se conhecer melhor, afirmar as sensibilidades, compreender o outro, mas também dar vazão ao próprio desejo, outrora congelado e muitas vezes soterrado pelas barreiras impostas pela idade, insegurança, sentimentos mal resolvidos, e claro, a influência direta da sociedade.


O gestual, as preferências, as observações, e principalmente, o posicionamento e a busca colocam no centro uma pessoa que é indagada, confrontada, inferiorizada e ironizada pelas pessoas que estão à sua volta, como se a solidão e envelhecer fossem um fardo a ser carregado como crime.


O texto, contudo, não pinta, Etero como vítima, pelo contrário, existe uma contundência, uma busca muito sensível para um amor-próprio, talvez os discursos enfáticos e algumas passagens podem ser enxergadas como manipulações narrativas para enfatizar a humanidade e autodefesa de Etero. Nervari ainda é mais enfática ao ampliar esse discurso na interação da protagonista com outras mulheres, seja na posição de revidar insultos, reverter a indiferença das pessoas com atenção pela forma de se colocar, ou até momentos de cumplicidade e concordância em compartilhar gostos ou alguém demonstrar ser contemplada, mesmo que sem palavras, pelas falas dela.


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Embora a percepção destes recursos possa existir, o incomodar a quem possa identificar um teor “panfletário” e simplista, a força do filme reside justamente na complexidade e riqueza de detalhes que Etero se desenvolve, e balança em um carisma, assertividade e alguma leveza firmes que ela se posiciona a cada dúvida, insegurança e o desenho de violências graduais, de um cotidiano tipicamente hostil, mas que resvala a melancolia e medo, portanto desenha complexidades.


Complexidades essas, interpretadas com uma bravura e forças inigualáveis de Eka Chavleivshki, que traz diversas mensagens e comunicações com um mero olhar que reflete toda carga conceitual expressa pela história e trazer sensações tangíveis que não podem ser presenciadas com exatidão por meio da imagem, como sentir a respiração sem que haja um destaque sonoro para a ação, as pulsões do corpo e incorpora subjetividades que elevam as interações para um plano crível e de grande cumplicidade. A ambientação idílica, ações representativas e a observação pontual de toda uma comunidade sem perder a lente pela protagonista, além das camadas sonoras que revestem tons imersivos e aproximados para uma história que tanto conclama um olhar direto sobre a sensibilidade intrínseca de uma pessoa.


 

Crônicas do Irã


As cronologias de um absurdo que se estende a diversas camadas e facetas da sociedade iraniana, é isso que a de dupla Ali Asgari e Alireza Khatami se propõem ao estruturar “Crônicas do Irã” por meio de pequenos fragmentos uma série de violações aos direitos individuais da população.


CRONICAS DO IRA FESTIVAL DO RIO

A rigidez formal do plano fixo concentrado tão somente em um ator ressoa ainda mais em uma voz distante, fria e autoritária de um lado e a reação altiva, inapelável e absurda, são opostas ao desamparo de pessoas que só querem ter os direitos básicos que vão em diversas situações corriqueiras, como momentos no cartório, provar roupas no shopping, entrevistas de emprego, situações de trabalho, processo de tirar a carteira de motoristas.


Todas essas situações intrincadas ganham conotações sociais denuncistas ao evidenciar problemáticas sociais como a dificuldade de abertura e aceitação a flexibilizar as tendências globais do mundo, a imposição moral e religiosa, o assédio moral e o assédio sexual. Tocar em temas sensíveis de forma denuncista e contundente, é algo que permeia muitos cineastas iranianos de diferentes alcances e abordagens, entre eles se notabilizam com obras que rodam o globo, citando somente alguns nomes: Jafar Panahi, Mohsen Makhmalbaf e Asghar Farhadi.


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Crônicas do Irã”, tenta se inserir neste panteão com esse retrato que evidencia um certo pessimismo e impotência, com o diferencial na própria forma, pois vemos esses indivíduos vulneráveis e mesmo relutando são fadados a resignação e a humilhação sofrida pela força de uma hegemonia cultural. A frontalidade e a extrema assertividade de engajamento político não escondem um segundo sequer, e não à toa, como um reflexo do próprio tema, os diretores foram impedidos de filmar e viajar por território iraniano, ilustrando o discurso do filme.


O peso e o pessimismo acachapante do filme podem gerar afastamentos e críticas, mas o abalo e impacto apresentados, reforçados em um desfecho mais que impactante. Mas os fatores apresentados na produção e as situações mais reais que a própria ficção, não negam a importância do que é discutido nesta crônica de um mal-estar mundial.


 

Pobres Criaturas


Possivelmente um dos filmes com maiores expectativas presentes no Festival, que justificaram um esgotamento de ingressos quase que instantaneamente, dirigido por Yorgos Lanthimos, goste-se ou não, um dos nomes mais comentados do cinema mundial e com a presença de um elenco abarrotado com grandes estrelas de Hollywood, embalado por nomes Emma Stone, Mark Ruffalo, Willem Dafoe. O Leão de Ouro em Veneza e a exclusividade conseguida pelo Festival do Rio, que se orgulhou de exibir toda extravagância da produção no igualmente muito chamativo cinema Odeon e apresentado pela diretora do Festival, Ilda Santiago, como “um filme que já nasceu clássico”.


POBRES CRIATURAS FESTIVAL DO RIO

Não acho que caiba a mim capacidade para pontuar tal informação, mas é sim uma produção que realmente convoca percepções inflamadas nos múltiplos campos de pensamento. Pois, estamos falando de um filme que tenta se distinguir e se embalar com uma estrutura “indistinguível” que não poupa os excessos, maneirismos e a busca pelo choque, é em última medida, um reflexo temático, narrativo de um cineasta que fez fama justamente pela exposição à barbaridade e anomalia. Em Pobres Criaturas, Lanthimos se debruça com todas as possibilidades expansivas, grotescas e desconfortantes de um universo cinematográfico mutável e cambaleante.


O abraço a este universo estranho e particular da monstruosidade e de um imaginário de horror adaptado de um livro de mesmo título de Alasdair Gray, que também assina o roteiro do filme. Em um primeiro momento, o filme passa a ambientar e trazer sensações menos diretas e mais de um campo do humor de comportamentos kitsch, erráticos e os assume como bestas selvagens.


Assim que o contexto de Bella Baxter (Emma Stone) se descortina da amoralidade e incapacidade de discernir o que acontece para uma tomada de consciência da condição social e o texto passa a reverberar conotações políticas e sociais mais explícitas e mais carregadas que reiteradas por um excesso pouco dosado e repetitivo geram um cansaço, porém despertam comentários mesmo que esses comentários venham com um humor bastante autorreferente e que busca fazer comentários inteligentes a todo momento, sobre liberdades individuais e emancipações sociais por uma perspectiva feminina.


Lanthimos consegue acessar bem os atores, e além de um arco intenso de Stone, Mark Ruffalo encarna um tipo cafajeste e parece bem confortável e traz recursos, expressões e falas rápidas que se encaixam bem com o tom proposto pela narrativa, de outro lado, Willem Dafoe se adequa bem à maquiagem e as características de seu personagem, trazendo o humor do contraditório.


POBRES CRIATURAS FESTIVAL DO RIO

As experimentações visuais e a cartilha aberta para compor a fantasia visual do filme que assume a citada extravagância a todo custo e variações, estilos visuais, composições peculiares que vão desde um desenho de produção sem limites para sonhar que trabalha formas expansivas e que dão corpo de situações e recursos criativos. Para uma sofisticação fotográfica do preto-branco com alta incidência de fontes luminosas e contrastes, aos tons coloridos e vibrantes numa própria lógica instalada por Lanthimos.


Pobres Criaturas” é uma obra que não mede esforços para o impacto, que escora boas atuações e uma concepção visual específica, e apesar de não sentir a urgência tratada, inevitavelmente vai render muitos debates e será figurinha carimbada nos filmes mais comentados do ano.

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