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  • Foto do escritorMarcio Weber

Sanshô dayû/ O Intendente Sansho (1954) - Kenji Mizoguchi


A fratura incontornável da existência humana.


Existe uma necessidade de rotulação e afirmação em relação a tudo que fazemos e acontecemos. Isto é um movimento natural da comunicação e da sociabilidade. Entretanto o excesso desta afirmação levam prerrogativas e indicações que podem ser banalizadas ou até autocráticas;.


Tendo isto em mente, não titubeio em reproduzir a construção social que coloca "Intendente Sansho" como uma obra atemporal e que abocanha os adjetivos de poderoso, forte, imprescindível, ou seja o tão famigerado rótulo de obra-prima.


Trata-se de um olhar clínico que em momento algum esconde o pior que existe no ser humano. A tirania, o individualismo, a ganância e arbitrariedade. Onde lideranças feudais por desavenças e demonstrações egóicas que agem com o despudor de separar e escravizar famílias. Nutrindo o ressentimento, a amargura, a dor e o suplício de um sentimento que gera cicatrizes e marcas duradouras.


Mizoguchi apresenta um domínio narrativo invejável, onde consegue dar vazão ao retrato político e social de valores que ainda reverberam na sociedade atual e mapeia um arco dramático com reviravoltas e sentimentos fortes sem cair em armadilhas sentimentais e imprimindo sensações genuínas de efeitos sociais como o desamparo, a revolta, a angústia, mas que também direciona outros aspectos redentores do comportamento humano como a necessidade o elo e afeto que nos unem, a esperança de conseguir sublimar imposições e dificuldades em relação a vida.


A direção é marcado por composições complexas e meticulosamente calculadas e que assemelham ao pictórico e explora a ambiência e características sensíveis e detalhistas de templos, vegetações e outros aspectos que não apenas localizam a trama no Japão do século XI, mas traz identificação e uma escala épica para uma narrativa tão voltada para a história do Japão.


Os atores são dirigidos com rigidez e esmero, com as movimentações, falas e expressões corporais ressoando a solidez e a magnitude dos arcos dramáticos compostos pela produção.


Mizoguchi alerta para a corrupção e que o excesso de poder e tirania leva a tragédia a todos os envolvidos. E estabelece assim uma obra abundante em potencial de discurso e cinema.



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